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reinata


Reinata Sadimba, a escultora do planalto dos artistas de ébano fala-nos de si, e do seu maior desejo: ter um atelier próprio.

Reinata Sadimba esteve recentemente na Suíça e em Portugal onde trabalhou obras que expôs em presenças de sucesso. As críticas foram elogiosas e as compras sucederam-se. Em Portugal, a comunicação social, nomeadamente a televisão, deu relevo à exposição.

A artista é hoje conhecida mundialmente e já esteve também nos Estados Unidos, em França, na Inglaterra e em Itália.
"Não faz obras por encomenda, ela sabe que as pessoas compram o que cria", afirma a filha Júlia.

"Os estrangeiros gostam mais de mim, compram mais, especialmente os portugueses", queixa-se a artista que apesar de tudo reconhece que é conhecida do Rovuma a Maputo.


A dona de umas mãos únicas, que tratam o barro como amigo e confidente mais do que como elemento de trabalho escultórico, Reinata Sadimba recebe-nos com o seu ar travesso de sempre, irrequieto, ("há muito tempo que não vens cá comprar nada"), em que o olhar ligeiramente desconfiado desaparece esporadicamente dando lugar a um largo sorriso, de simpatia, de hospitalidade.

Oriunda das terras altas de Cabo Delgado, do inspirador Planalto de Moeda, que tanto conforta e define os escultores macondes do Ébano, Reinata nasceu em Nimo, longe do mar, e vive actualmente em Maputo onde continua a trabalhar afincadamente o barro, elemento que privilegia ao contrário do habitual no seio dos seus conterrâneos.
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"Comecei a trabalhar o barro como protesto, como refúgio, pelos maus tratos que o meu marido me infligia e afligia", diz com um ar acabrunhado que enche a face marcada de rugas falam por si, que contribuem para fechar ainda mais o olhar profundo, inatingível. Foi para aí há uns 20 anos.

Os olhos olham para longe, e pouco depois acrescenta: "E nem dinheiro me dava; foi Deus que me abriu este caminho depois de muito lhe pedir". Em miúda ajudava a mãe a fazer potes que vendiam com sucesso porque as pessoas precisavam de transportar a água. Também trabalhavam pratos e panelas.

As explicações saiem aos "solavancos", demoram porque Reinata é assim. Fala quando quer mas desgosta do gravador; focaliza a simpatia na objectiva e pede ao fotógrafo para não parar.

Fazemos as perguntas e Júlia, a filha-tradutora, transmite-as em português, já que a escultora com as "mãos - de - Deus" não sabe português, "Eu, só quero aprender maconde, eu sou maconde, maconde".

"Agora não quero falar mais,..,vem vem!", e leva-nos ao atelier onde ensaia danças enquanto nos mostra trabalhos já finalizados. "Dança, dança", insiste, e fazemos-lhe, naturalmente, a vontade. Amanhã é outro dia, outro nascer, e ela aqui estará à espera de nós, e nós à espera que esteja numa de falar.
A Serpente

"Júlia, querida, porque é que ela está a desenhar uma serpente a. volta da criança-mulher?". Falam entre si, Reinata recusa explicar, fecha-se, percebemos, mas a Júlia, também nossa amiga (Obrigado!), insiste e finalmente temos a explicação em português: "É o espírito ao marido que morreu".

De idade incerta, (e porque como sempre é necessário referências estipulou-se como ano oficial de nascimento o longínquo 1945), Reinata andou pelas matas da guerrilha em busca da independência, transportando à cabeça as munições dos camaradas, e veio para Maputo em 1992. Um ano depois chamou o filho, o também escultor Samuel Muankongue e desde essa altura que vivem os dois, em cumplicidades e afastamentos.
Em Mocimboa da Praia ficou a filha, Joana, o que a terá levado a adoptar a doce Júlia. "Cheguei a Maputo, sozinha, em 1978, a Reinata encontrou-me aqui", esclarece-nos a filha adoptiva. "A nossa relação é um faz-de-conta, a irmã dela casou o meu irmão mas como não a consigo tratar por cunhada chamo-lhe mãe, mamã". Mas a filha Joana também não o é de sangue próprio porque é filha de uma irmã.
“No meu tempo as mulheres que não faziam tatuagem na cara não eram mulheres” (Reinata Sadimba), “mas agora se alguém fizer isso eu bato”.

A tatuagem “dinembo” ocupa a face. Circula-a, marca-a; A “ndona” (furo do lábio e da língua), afirma-a definitivamente. “Ninguém pode dizer que sou macua ou jauá”, (Reinata Sadimba)

Júlia, 38, ajuda a escultora, nas palavras e nos trabalhos, aligeirando o barro, amaciando-o. "Os corpos sei fazer mas não as cabeças", di-lo sem resignação, apenas com humildade, "ainda não tenho prática para trabalhar sozinha".
"Pergunta-lhe porque é que anda triste"; é Júlia quem nos desafia. Não nos fazemos rogados e a resposta vem rápida, incisiva: "Tratam-me mal...".

"Porquê Reinata, quem...". "Eles, se eles gostassem de mim davam-me um bom atelier, para trabalhar e ensinar".
"Qualquer dia vou-me embora, volto para Cabo Delgado", ameaça com uma expressão sofrida e dura. "Se não fosse o Dr. Cabral nem sítio tinha para trabalhar". "Obrigado Dr. Cabral", atira. (Augusto Cabral, ensaísta e crítico de arte, director do Museu de História Natural em Maputo, onde a escultora tem o seu "cantinho").

A Reinata sonha com outras condições de trabalho para concretizar o sonho de ensinar as artes de que o barro é feito, a adultos mas particularmente a crianças, a estudantes. Porque a arte expressa sentimentos e indica caminhos.

"Ela já tem ensinado pessoas aqui", diz Júlia Nachaque, "mas quer um lugar maior, melhor".

Mesmo sem o espaço desejado, é vê-la todas as manhãs nas traseiras do Museu a trabalhar obras que levam dois a três dias a serem concebidas.




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